sexta-feira, 24 de agosto de 2012





Não quero mais esse vai e vem, essa intermitência do querer um prazer tão assustador, tão displicente, que me aprofunda no meu não ser. Quero desfazer esse mal feito que se plantou aqui. Ai de mim, se não refizer o meu caminho. Ai de mim, se não reconstruir a minha estrada. Não quero ser isso, não, nem perto disso. A minha janela verdadeira se quebrou e eu me ceguei ante às outras portas. Não! Há algo errado. Quando meu pé pisou em falso, devia eu saber consertar o passo. Não o fiz e andei por atalhos de campos minados. Pisei em bombas. Ainda não me explodi, mas estou perto de tropeçar na granada. Eu sei como encontrar o caminho do vale das flores, só preciso de uma força, e tal força ainda não sei onde está. O que é congênito me é muito mais forte e perverso. Socorro! Não, não, não! Eu mesmo buscarei a chave da felicidade. Eu entrei no labirinto, eu sairei por mim mesmo. Eu sempre fui assim. Me enrosquei, mas sempre achei a saída. Nada há de me cegar. Meu destino é maior do que a vida!

quarta-feira, 14 de março de 2012

Descoberta

                                     




Queria saber o que mais tenho em mim e que foge deliberadamente ao meu controle, ao meu domínio. Aquilo que não está em mim, mas que é em mim. O que me abre diariamente os olhos. Queria identificar aquilo que, apesar de parecer estar em meu interior, me absorve como algo que se expande sem parar. Aquilo que dilacera tudo por dentro, mas me envolve. Queria poder distinguir o porquê da alegria do porquê da tristeza. Mas parece que tal distinção não há. O porquê é um só. Queria entender minha aflição, as minhas frequentes inexistências ou, então, ter a certeza de que elas é que, na verdade, são o meu existir. Queria encontrar uma via ao nada persistente em mim, o qual me agride sem fim e me destoa aqui. Queria saber o que não me compõe, o que é presente quando ausente estou. Queria radiografar minha alma. Queria um caleidoscópio inverso para alcançar o meu verso. Queria sumir de mim, prostrar-me à minha frente e observar-me do lado de lá, a fim de vasculhar o confuso lado de cá. Queria saber o que agora me dá sono e morbidez, por quê nunca consigo ser somente um, mas dois ou três. Queria saber por quê me abalo sem razão; por quê, quando caio, não levanto do chão; quando choro, só enxugo com as mãos. Queria enxergar o que está tão perto de mim, mas não me é permitido ver; aquilo que pra sempre quero, até quando não tenho porque. Mesmo nesse instante, é isso o objeto do meu querer. Queria uma passagem ao fundo do fundo, ao berço de tudo, ao quarto escuro da criação. Mas se a tivesse, a volta seria ilusão. Queria uma palavra que me desmontasse, que me reduzisse ao desconhecido elemento primário da vida. Queria sentir a estranha sensação de saber o que sou.
Somente queria, pois a realização do desejo não me trará a satisfação. Queria e só queria.

segunda-feira, 12 de março de 2012

Mão Dupla

                                          



Desisti de querer ser compreendido. Minhas razões são absolutamente minhas e só minhas. Eu sei o que e como vejo, mas quase nada é realmente como parece ser. Não adianta me esgoelar rua afora, não irão me entender. Como dita o provérbio: "coração de gente é terra que ninguém invade, nem com faca de cortar boi". Isso não é uma queixa, é uma constatação.
Meu vão afã é sempre alcançar o entendimento alheio, como que por afirmação. Mas o outro é distante, está na outra margem do rio. Não há ponte alguma e eu não sei nadar. Há, sim, um caráter narcisista nesse meu desejo, necessidade humana rasteira de imposição. Terrível! Por isso, é inútil lutar, existem forças igualmente desejosas vindo em sentido contrário. Todos constroem suas razões, não há espaço para intervenções ou convencimentos. Portanto, hoje percebo que é preciso parar. Devo redirecionar meu anseio, acho que vou tentar a mão inversa.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Fênix



Eis que ressurge a alma voadora. Eis que os pensamentos se desencavam. Não estava morto, apenas anestesiado. Acordei! Acontecimentos são preciosos. Ora nos derrubam, ora - logo, logo - nos elevam. É bom saber que a vida nos surpreende a cada instante e que seu relógio nunca quebra. Viva a alma humana! Há pessoas maravilhosas ao nosso redor, só que reconhecer as odiáveis parece mais fácil. Porém, quando conseguimos tal prazer de garimpeiro, o espírito agradece e o desejo se renova. Volto ao prazer da minha escrita fulgurante de alegria. Estou varrendo as cinzas.

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Paradoxo



Estou convencido de que não nos somos, em sociedade, verdadeiramente, a todo tempo. Ainda que alguém teime afirmar-se como integralmente transparente, prossigo com a tese de que ninguém se mostra por inteiro. Parece constatação óbvia, porém admiti-la não parece coisa das mais naturais em nosso meio.
A personalidade humana possui recantos que são pouco visitados ou até inabitados. Há sempre um pedaço nosso que não conseguimos enxergar, logo não podemos revelá-lo ao outro.
Os momentos de auto-encontro talvez consigam uma boa proximidade daquilo que se pensa ser a transparência. No entanto, estes instantes são uma parte dos culpados pela existência inexorável da omissão que persegue nosso ser.
Ora, por que cargas d'água temos que nos descobrir totalmente para os outros? Quem nos colocou essa exigência? Não prego a falsidade, pois esta se vale da disfarçatez, enquanto concebo como inerente ao verdadeiro ser a omissão, que, por sua vez, está bem distante do ser falso. 
Por isso, encaro como imanente ao nosso espírito o fato deste não ser inteiramente revelador, visto que, para conseguir ser verdadeiro, ele necessita esconder-se em parte.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Janela




Nada melhor do que reaprender a ver, ou melhor, a enxergar a vida. Passamos por diversas fases, cultivamos diferentes "estados de espírito", nos posicionamos em distintos mirantes durante toda nossa caminhada. Cada um desses estágios encerra ao menos um olhar sobre o mundo.
Por alguns momentos, eu me sentia simplesmente feliz por ser criança, rir à toa, não ter compromissos, brincar com a terra das ruas e descobrir, principalmente, descobrir novas coisas.
O conhecimento me fazia e ainda me faz muito feliz. As pequenas descobertas representam grandes felicidades. Aprender a ler, por exemplo, foi, para mim, como nascer de novo. As pequenas felicidades, na verdade, são imensas. A simplicidade dos instantes em que elas surgem é que nos dá a impressão de miudeza. 
Mas, em meu íntimo, hoje, uma grande pequena felicidade é ver o sorriso sincero de alguém, é fazer o bem e ser recompensado apenas com a alegria do outro, é encher os olhos d'água e sentir-me bem, é conquistar novas amizades, conversar com um estranho como se o conhecesse há anos, é encantar-me, ainda que vivendo nesse turbulento mundo.
Diante da minha janela se plasma a alegria de poder ver e rever a vida.

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Andar




Para livrar logo em breve
Firmando um segundo
Escorregando de leve
Caindo profundo
Riscando o mundo
Deixando sujeira
Carregando poeira
Marcando a terra
Pedindo passagem
Abrindo caminho
Tocando o chão
Chutando o vento
Eles vêm e vão
Viajam lentamente
Por pedaços de imensidão
Meus pés quando saem do chão


(O poema se completa ao ser lido também de baixo para cima)

César Cunha              05 de julho de 2006

Aurora



Bom mesmo é poder recomeçar. Isso é o bom da vida. Nada como a maravilha do nascer do dia. Recomeçamos a cada subir do sol lá no liso do horizonte. Temos sempre a liberdade de fazer, o poder de fazer, ainda que, por vezes, não devamos fazer. No fundo, não existem leis de espécie alguma. A verdade é aquilo em que se acredita.
Acordar, ir até a praia, andar, sentar na areia e olhar para o mar, começar o dia com alguma nova decisão... Uma mudança, uma tão temível mudança. Porque não? Parar de fumar, ser mais tolerante, menos impulsivo, iniciar um bom período de estudos para um determinado fim, almejar, organizar, direcionar...
O amanhecer traz ordinariamente algo de novo. Cada minuto é uma novidade, apesar de pensarmos ter planejado tudo. Até podemos planejar, mas acontecimentos são acontecimentos. São livres, externos.
Bom mesmo é poder se apaixonar uma vez mais, após ter sofrido dolorosa decepção. Esta é nada mais que o malogro das persistentes expectativas.
Bom mesmo é conhecer alguém mais ou descobrir num conhecido coisas admiráveis, que jamais tivera a oportunidade de apreciar. 
Bom mesmo é morrer toda a noite e encher-se de vida a cada novo brilho do sol.