domingo, 25 de novembro de 2012


INEVITÁVEL

Quando ausente na presença
Se plasma na língua
Que teima em não querer
Se desmanchar na expressão
Do teu existir
Não há mais como não ser
Não dá mais
É célula cancerígena
É metástase
Sombra das minhas passadas
Legado futuro
Marca cingida antes do fim
Aquilo que está embaixo da concha
Subproduto do cotidiano
Invasão imperialista
Bomba paralisante
Instante perpétuo
Coisa acontecida
Signo do mais
E mais, e mais e mais,
E sempre...

quinta-feira, 18 de outubro de 2012



Pedaços

Não sei quantas almas tenho
Não há como contá-las
Grãos de areia
Pensamentos
Explicações...

Corolário de insinuações
Mosaico de personas
Carnaval de pierrôs
Vitrais da catedral
Faces em mil milhões.

Uma a cada dia
A cada hora
Pra cada pessoa
Cada uma com sua história
Verdades e mentiras...

Quantas almas eu tenho?
Talvez, somente uma.
Mas não consigo juntar
Seus pedaços.

sábado, 6 de outubro de 2012

Encaixe

Quero poder ser agraciado
Todos os dias
Com a maravilha do seu sorriso.
Te carinhar até que doa,
Esquecer de tudo,
Dividir o mundo com você.
Ser, de verdade,
A partir de agora.
Quero sentir você
 A cada respiração,
Até o fim do fôlego.
Quero me doar pra sempre.
Ser seu meio
Ser seu fim.
Quero estar com você
Pra que tudo
Se complete, assim.

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Necessidade


A caneta teima em lutar
Contra o branco do papel
Que se impõe como um
Guerreiro do silêncio.

Uma omissão indicativa
Da aflição, exagero
Do vazio.

As palavras rondam maliciosas
Como à espera da largada
...um simples traço.

Invadem teimosamente
E se instalam
Atraem-se mutuamente,
Em cadeia.

Exigem o desperdício da tinta
Para o preenchimento 
Dos espaços do papel
E enganar
Os vácuos da alma.
Impasses

De impasses
Vivo à toda hora
A todo instante
Isso me devora

Num só passo
Quero tudo
E nada laço
Assim descubro
Passo a passo
Que não passo
De um braço
Afanado
Pelo vil valor
Que é dado
Ao compasso
De um viver
Vangloriado
Exigente
Do meu descaso
Ao querer
De um descompasso

Já não sei
Mais o que
Faço!

quinta-feira, 27 de setembro de 2012


Yang

Parte de mim que estava
Escondida no além do ser
Estava congelada,
Alma que se plasmou em minha estrada.
Face negra que faltava em mim.
Todo o meu querer a mais
Que eu não podia transbordar
Que eu sabia que existia
Mas se encoquinhava
Perto das moquecas
Nunca antes postas ao fogo.
Pois era chegada a sua hora
De se pôr à mesa.

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

A vida é uma entidade independente. Existe sem nós, antes de nós, antes de tudo. Nós somos serviçais da vida. Somos meio de transporte, um depósito, um lar temporário.Temos obrigações para com ela e as cumprimos inevitavelmente. Ao nos entendermos donos das "nossas" vidas, esforçamo-nos por mantê-las, sem saber que estamos cumprindo o papel que ela sutilmente nos impõe. Somos peças de um laboratório. Talvez a vida queira encontrar seu invólucro ideal.
Dessa forma,  a vida só é interessante para ela mesma. A vida não nos interessa. E só se fará interessante, se nos fizer sofrer, se nos fizer penar, se nos fizer escapar à constância. Não haveria prazer à vida se nós conseguíssemos tudo o que desejássemos, se fossem simples as realizações, se todos se compreendessem perfeitamente, se descobríssemos todos os segredos do universo, se a paz reinasse, se tudo se encaixasse maravilhosamente, se o amor encontrasse facilmente sua plenitude, se chegássemos rapidamente à felicidade.
Se assim fosse, a vida não precisaria nos usar em seu laborioso intento de descobrir sua composição mais orgânica. Portanto, para nós não há grande diferença em sofrer ou não sofrer, afinal não seríamos nada mais sem a vida. Não teríamos utilidade alguma.


Escurecendo

Irá escurecer
Por menor que seja
A velocidade rotativa
da terra,
Irá escurecer.

Irá escurecer
Por desleixo, por vontade
Por velhice, por maldade
Com certeza e sem piedade,
Irá escurecer.

Irá escurecer
De dia
Ou mesmo à noite
Escancaradamente
E de açoite,
Irá escurecer.

Irá escurecer
Por maior que seja
O medo
E o afã do inverso,
Irá escurecer.

Irá escurecer
Antes que eu queira
Ou depois do que eu espero
Por força da razão
Em razão de algum mistério,
Irá escurecer.

A cada passo lento
A cada fim de verso
Já vai escurecendo
E eu nem me despeço.