segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012
Fênix
Eis que ressurge a alma voadora. Eis que os pensamentos se desencavam. Não estava morto, apenas anestesiado. Acordei! Acontecimentos são preciosos. Ora nos derrubam, ora - logo, logo - nos elevam. É bom saber que a vida nos surpreende a cada instante e que seu relógio nunca quebra. Viva a alma humana! Há pessoas maravilhosas ao nosso redor, só que reconhecer as odiáveis parece mais fácil. Porém, quando conseguimos tal prazer de garimpeiro, o espírito agradece e o desejo se renova. Volto ao prazer da minha escrita fulgurante de alegria. Estou varrendo as cinzas.
sábado, 12 de fevereiro de 2011
Paradoxo
Estou convencido de que não nos somos, em sociedade, verdadeiramente, a todo tempo. Ainda que alguém teime afirmar-se como integralmente transparente, prossigo com a tese de que ninguém se mostra por inteiro. Parece constatação óbvia, porém admiti-la não parece coisa das mais naturais em nosso meio.
A personalidade humana possui recantos que são pouco visitados ou até inabitados. Há sempre um pedaço nosso que não conseguimos enxergar, logo não podemos revelá-lo ao outro.
Os momentos de auto-encontro talvez consigam uma boa proximidade daquilo que se pensa ser a transparência. No entanto, estes instantes são uma parte dos culpados pela existência inexorável da omissão que persegue nosso ser.
Ora, por que cargas d'água temos que nos descobrir totalmente para os outros? Quem nos colocou essa exigência? Não prego a falsidade, pois esta se vale da disfarçatez, enquanto concebo como inerente ao verdadeiro ser a omissão, que, por sua vez, está bem distante do ser falso.
Por isso, encaro como imanente ao nosso espírito o fato deste não ser inteiramente revelador, visto que, para conseguir ser verdadeiro, ele necessita esconder-se em parte.
terça-feira, 8 de fevereiro de 2011
Janela
Nada melhor do que reaprender a ver, ou melhor, a enxergar a vida. Passamos por diversas fases, cultivamos diferentes "estados de espírito", nos posicionamos em distintos mirantes durante toda nossa caminhada. Cada um desses estágios encerra ao menos um olhar sobre o mundo.
Por alguns momentos, eu me sentia simplesmente feliz por ser criança, rir à toa, não ter compromissos, brincar com a terra das ruas e descobrir, principalmente, descobrir novas coisas.
O conhecimento me fazia e ainda me faz muito feliz. As pequenas descobertas representam grandes felicidades. Aprender a ler, por exemplo, foi, para mim, como nascer de novo. As pequenas felicidades, na verdade, são imensas. A simplicidade dos instantes em que elas surgem é que nos dá a impressão de miudeza.
Mas, em meu íntimo, hoje, uma grande pequena felicidade é ver o sorriso sincero de alguém, é fazer o bem e ser recompensado apenas com a alegria do outro, é encher os olhos d'água e sentir-me bem, é conquistar novas amizades, conversar com um estranho como se o conhecesse há anos, é encantar-me, ainda que vivendo nesse turbulento mundo.
Diante da minha janela se plasma a alegria de poder ver e rever a vida.
sábado, 5 de fevereiro de 2011
Andar

Para livrar logo em breve
Firmando um segundo
Escorregando de leve
Caindo profundo
Riscando o mundo
Deixando sujeira
Carregando poeira
Marcando a terra
Pedindo passagem
Abrindo caminho
Tocando o chão
Chutando o vento
Eles vêm e vão
Viajam lentamente
Por pedaços de imensidão
Meus pés quando saem do chão
(O poema se completa ao ser lido também de baixo para cima)
César Cunha 05 de julho de 2006
Aurora
Bom mesmo é poder recomeçar. Isso é o bom da vida. Nada como a maravilha do nascer do dia. Recomeçamos a cada subir do sol lá no liso do horizonte. Temos sempre a liberdade de fazer, o poder de fazer, ainda que, por vezes, não devamos fazer. No fundo, não existem leis de espécie alguma. A verdade é aquilo em que se acredita.
Acordar, ir até a praia, andar, sentar na areia e olhar para o mar, começar o dia com alguma nova decisão... Uma mudança, uma tão temível mudança. Porque não? Parar de fumar, ser mais tolerante, menos impulsivo, iniciar um bom período de estudos para um determinado fim, almejar, organizar, direcionar...
O amanhecer traz ordinariamente algo de novo. Cada minuto é uma novidade, apesar de pensarmos ter planejado tudo. Até podemos planejar, mas acontecimentos são acontecimentos. São livres, externos.
Bom mesmo é poder se apaixonar uma vez mais, após ter sofrido dolorosa decepção. Esta é nada mais que o malogro das persistentes expectativas.
Bom mesmo é conhecer alguém mais ou descobrir num conhecido coisas admiráveis, que jamais tivera a oportunidade de apreciar.
Bom mesmo é morrer toda a noite e encher-se de vida a cada novo brilho do sol.
terça-feira, 1 de fevereiro de 2011
É o que só lhe dão
Todo homem é, antes de tudo, um
solitário
Uns fazem o tipo angustiado,
outros o deprimido
Alguns viram conchas, uns
refugiam-se na excentricidade, outros preferem o alheamento
Muitos fingem normalidade,
poucos, corajosos ou extremos covardes, rendem-se e sofrem até o fim
Boa parte até casa-se, mas não
larga o habitual exercício da solidão
Os bons atores vendem-se como “Dons
Juans”, encenam seus atos em praça pública e depois choram ao primeiro cerrar
das cortinas
Os mais fracos não desperdiçam
uma oportunidade de demonstrar toda sua carência inextinguível; e aqueles ainda
mais fracos, de se flagelar
Não raro, se vê um que dissolve
tudo em uísques ou similares
Há até os que se acalentam com a
persistência do sonho irrealizável: o fim do fim de quem ama
De certo, há também o que escreve
poemas durante a madrugada; o que canta no chuveiro; o que sempre viaja, a fim
de compensar com “amizades” efêmeras e fotográficas; o que vira padre; o que
toca violão; o que tenta suicídio, nunca para morrer, é claro; o que vira
executivo e enlouquece de vez; o que extravasa nas cores de uma tela; o que
acaba mendigo
Também há de se encontrar o que
compra horas de satisfação carnal; o que se dedica, como que inevitavelmente, a
obras benemerentes e há aquele que...
Enfim, há tantos e, tantos
quantos forem, haverá suficientes estratagemas que jamais conseguirão desfazer
tal situação.
Os ponteiros marcam: uma hora e
vinte e cinco minutos da manhã de mais um dia.
sábado, 29 de janeiro de 2011
Em Branco

Que é saber viver? Quais são minhas possibilidades? O que posso fazer? O que não posso? Se ao fazer sinto-me bem, porém depois sofro por ter feito, isso é bom ou não? Onde se guarda a lista dos preceitos morais da vida humana? Por que ela nos é tão vacilante? Como saberei quando estou dando passos em falso ou quando estou pisando firme? na verdade, qual é o meu itinerário? O mundo me dá pistas? A que leis obedece o meu viver? Como saber se sei? Como desvendar os sinais diários de vida?
Há uma dupla ou, talvez, múltipla presença de personas em mim. Uma me eleva transitoriamente a alucinações prazerosas e angustiantes; outra me imantiza ao solo, me equilibra em meio a tantos conflitos internos.
Como achar a interseção? Será isso saber viver? Pouca e intensa é a vida. Pouca é a nossa sabedoria para decifrá-la. Carrego os dias como embrulhos que preciso entregar nalgum destino. Não sei de sua essência, só transporto sensações. Observo e escuto o mundo. Ele está a todo vapor, girando intermitente a conceder desafios perenemente. Talvez vivamos num eterno lusco-fusco. É preciso aprisionar os átimos luminosos, fazê-los correr por nosso sangue, nossas mentes, acumulá-los para compensar os blecautes. Como combater meus pontos fracos? Como consumir meus desesperos sem desesperar-me?
Não me avisaram nada quando cheguei aqui.
sexta-feira, 28 de janeiro de 2011
Purificar
Bom mesmo é quando conseguimos externar nossas emoções no instante mesmo em que elas se instalam. Tive, há pouco, belas contemplações, agora meu coração já está amainando, mas conservo ainda algumas fagulhas que dispersarei.
Parece que hoje o sol sorriu pra mim e uma leveza diurna me arrebatou.
Sol a pino, um bêbado levou uma garrafa de água até o alto da cabeça e se refrescou no meio da praça de Itapuã. Não sei se sua intenção era se lavar, mas acredito que aquele ato, ainda que ele não tenha consciência disso, é simbolicamente um meio de purgar sua alma. Ainda que não tenha algum sentimento de culpa, remorso ou coisa parecida, a água sobe o sol inclemente é conotação de bem-estar.
Não importa mais o que fez tal homem da sua vida para estar ali, em meio aquele grupo de outros beberrões da cidade. Importa é a alma que aquele homem carrega pra lá e pra cá, todos os dias, fustigando-a com uma vida insípida e sua, tão somente sua.
Naquele instante, o que me veio a mente foi olhar para o céu e pedir a Deus, crendo ingenuamente ser lá sua moradia, não relegar esse tipo de gente, que, por mais erros que possam ter cometido, têm ainda a vontade esquecida de lavar sua alma.
Assinar:
Postagens (Atom)
